Engenho e Arte

. .. . 18.8.04

Foto: Annabel Lee


Dúvidas apócrifas de Marianne Moore


Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?

A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?

Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?


João Cabral de Melo Neto
In: Agrestes. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985.






Por 15:51




. .. . 11.8.04

O bom começo

Foto: Annabel Lee

A boa literatura está repleta de exemplos de grandes livros cujos primeiros momentos não são capazes de antecipar a obra-prima que se revelará mais adiante. Também é fato que um começo inspirado não garante a qualidade de uma obra nem a fidelidade do leitor. Como diz o escritor Sérgio Barcellos Ximenes, do excelente Blog do Romance, bons começos "são desejáveis, mas não essenciais".

Considerações à parte, o fato é que eu, que adoro tais aperitivos, resolvi elaborar - de maneira absolutamente lúdica e descompromissada, contando apenas com minha memória insuficiente, algumas consultas ao Google e uns poucos livros ao alcance das mãos - uma lista com alguns primorosos começos de romances. Vejamos:




Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.
Ana Karenina, Leon Tolstoi


No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.
Crônica de uma Morte Anunciada, Gabriel Garcia Márquez


Aqui estou, em pé diante da janela deste casarão no sul da França enquanto chega a noite, essa noite que me arrasta ao pior de todos os amanheceres de minha vida.
Giovanni, James Baldwin


Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal Pedro Páramo.
Pedro Páramo, Juan Rulfo


Me chame de Ismael.
Moby Dick, Herman Melville


O meu nome não.
A Fúria do Corpo, João Gilberto Noll


Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida.
O Jardim do Diabo, Luis Fernando Veríssimo


Uma das poucas coisas e, talvez mesmo, a única que eu sabia ao certo era esta: que me chamava Mattia Pascal.
O Falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello


Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos e, antes de começar, digo os motivos por que silenciei e por que me decido.
Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos


Era no tempo do rei.
Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antonio de Almeida


Hoje, minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.
O Estrangeiro, Albert Camus


Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu.
Menino de Engenho, José Lins do Rego


Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.
O Ateneu, Raul Pompéia


Sou um homem doente... Sou mau.
Memórias do Subterrâneo, Fiódor M. Dostoiévski


Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Lolita, Vladimir Nabokov


- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.
Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa


Ao despertar após uma noite de sonhos agitados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama transformado num inseto gigantesco.
A Metamorfose, Franz Kafka


Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã.
O Processo, Franz Kafka


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis


Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda esta lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.
O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger







Por 17:32