Engenho e Arte

. .. . 20.2.04

D. H. Lawrence (1885-1930)


BAWDY CAN BE SANE

D. H. Lawrence
*



Bawdy can be sane and wholesome,
in fact a little bawdy is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

And a little whoring can be sane and wholesome.
In fact a little whoring is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

Even sodomy can be sane and wholesome
granted there is an exchange of genuine feeling.

But get any of them on the brain, and they become pernicious:
bawdy on the brain becomes obscenity, vicious.
Whoring on the brain becomes really syphilitic
and sodomy on the brain becomes a mission,
all the lot of them, vice, missions, etc., insanely unhealthy.

In the same way, chastity in its hour is sweet and wholesome.
But chastity on the brain is a vice, a perversion.
And rigid suppression of all bawdy, whoring or other such commerce
is a straight way to raving insanity.
The fifth generation of puritans, when it isn't obscenely profligate,
is idiot. So you've got to choose.




A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL


A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.


*In: Poesia erótica em tradução / seleção, tradução, introdução e notas de
José Paulo Paes
. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.




Por 15:00




. .. . 7.2.04


Gregório Bezerra (1900-1983)




Fiquei parado frente ao portão. Um cachorro ladrou. Não fugi, porque o portão estava fechado. O cão continuou ladrando. A dona da casa chegou até a porta e perguntou-me o que eu desejava. Disse-lhe que queria comprar umas flores. Ela respondeu-me que não vendia flores e acrescentou:
- Tu não tens nem dinheiro para comer, como é que queres flores?
Insisti e ela tornou a perguntar:
- Quem te mandou comprar as flores e para quê?
- São para minha mãe. - Respondi.
- E tua mãe pode comprar flores? Por que não veio ela mesma? E onde é que ela mora?
- Ela não pode vir, não inhora. Ela mora lá em riba - disse e apontei o céu.

A senhora olhou-me já pesarosa e perguntou:
- Sua mãe é morta?
- É, inhora sim.
- E você quer flores para botar na cova dela, não é?
- É, inhora sim.

Abriu o portão e mandou-me entrar. Cortou uma porção de flores, as mais bonitas, e deu-me para levar. Perguntei-lhe quanto era. Ela respondeu-me com um beijo na fronte.
- Deus te conserve um bom filho!


Gregório Bezerra. Memórias - primeira parte: 1900-1945.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979. p. 130-131.




Por 13:26